Hoje julgamos todas as coisas a partir de um encadeamento
real e racional. Mas com a mesma força e razão poderíamos
referi-las a um encadeamento irracional -- basta inverter a
perspectiva de uma transcendência providencial para uma
transcendência maléfica. Ficaríamos menos desesperados
se pensássemos que cada desgraça estaria justificada com
relação a uma ordem do mal. Tal é a regra do otimismo radical.
É preciso fazer do mal a regra do jogo. É então que a exceção
passa a ser a da felicidade. É a alegria que se torna fatal.
Confere ao bem e à felicidade um prestígio novo: o de uma
miraculosa exceção.
JEAN BAUDRILLARD
HERA E ZEUS
JOHN DELVILLE
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008
CARLOS NEJAR
Ó eternidade... como temos que enterrar o que somos,
aos poucos, depois o que não somos nem seremos
nunca... E toda a terra conhece por demais a
extravagância humana, a ponta da alma enfiada
na piedade. Com a derradeira, porosa escuridão.
A eternidade não seria pequena aos nossos mais
perfeitos sonhos?
Não, a eternidade são os nossos mais perfeitos sonhos.
CARLOS NEJAR
aos poucos, depois o que não somos nem seremos
nunca... E toda a terra conhece por demais a
extravagância humana, a ponta da alma enfiada
na piedade. Com a derradeira, porosa escuridão.
A eternidade não seria pequena aos nossos mais
perfeitos sonhos?
Não, a eternidade são os nossos mais perfeitos sonhos.
CARLOS NEJAR
FERNANDO PESSOA
Há uma erudição do conhecimento, que é propriamente o
que se chama erudição, e há uma erudição do entendimento,
que é o que se chama cultura. Mas há uma erudição da
sensibilidade; que nada tem a ver com a experiência de vida.
A experiência da vida nada ensina, como a história nada informa.
A verdadeira experiência consiste em restringir o contato
com a realidade e aumentar a análise desse contato. Assim a
sensibilidade se alarga e aprofunda, porque em nós está
tudo; basta que o procuremos e saibamos procurar.
FERNANDO PESSOA
que se chama erudição, e há uma erudição do entendimento,
que é o que se chama cultura. Mas há uma erudição da
sensibilidade; que nada tem a ver com a experiência de vida.
A experiência da vida nada ensina, como a história nada informa.
A verdadeira experiência consiste em restringir o contato
com a realidade e aumentar a análise desse contato. Assim a
sensibilidade se alarga e aprofunda, porque em nós está
tudo; basta que o procuremos e saibamos procurar.
FERNANDO PESSOA
BALTASAR GRÁCIAN
Conhecer os próprios defeitos é tarefa árdua.
Até o homem mais perfeito não escapa deles.
Existem defeitos do intelecto, e eles são maiores
- ou se notam mais facilmente - em pessoas de
grande inteligência. Não porque a pessoa não
tenha consciência deles, mas porque os ama.
Dois males em um: afeição irracional, concedida
aos vícios. Trata-se de manchas no rosto da
perfeição. Aqui o esforçado deve vencer a si
mesmo, pois os defeitos são notados rapidamente
por todos. Em vez de admirarem nosso talento,
repisam nosso defeito, usando-o para diminuir
nossos outros dons.
(BALTASAR GRÁCIAN)
Até o homem mais perfeito não escapa deles.
Existem defeitos do intelecto, e eles são maiores
- ou se notam mais facilmente - em pessoas de
grande inteligência. Não porque a pessoa não
tenha consciência deles, mas porque os ama.
Dois males em um: afeição irracional, concedida
aos vícios. Trata-se de manchas no rosto da
perfeição. Aqui o esforçado deve vencer a si
mesmo, pois os defeitos são notados rapidamente
por todos. Em vez de admirarem nosso talento,
repisam nosso defeito, usando-o para diminuir
nossos outros dons.
(BALTASAR GRÁCIAN)
IBSEN
Há verdades que alcançaram uma idade tal,
que realmente sobreviveram a si mesmas. E,
quando se tornam velhas assim, estão a
caminho de se transformar em mentira. As
verdades que envelhecem tornam-se decrépitas
e duvidosas. Podem às vezes ser utilizadas
artificialmente, mas não têm vida. Isso explica
por que, quando as pessoas ficam desapontadas
com as novas idéias, o retorno às velhas não
ajuda muito. As idéias podem ser velhas demais.
(IBSEN)
que realmente sobreviveram a si mesmas. E,
quando se tornam velhas assim, estão a
caminho de se transformar em mentira. As
verdades que envelhecem tornam-se decrépitas
e duvidosas. Podem às vezes ser utilizadas
artificialmente, mas não têm vida. Isso explica
por que, quando as pessoas ficam desapontadas
com as novas idéias, o retorno às velhas não
ajuda muito. As idéias podem ser velhas demais.
(IBSEN)
ORÍGENES LESSA
O BICHO HOMEM
Nunca vi bicho mais feroz do que o homem, animal que
vive armado. Alguém já viu cachorro de faca, de metralhadora
ou de bomba? O cão, quando luta, sempre em legítima defesa,
ou na defesa de seus amigos humanos, é na garra, é no dente.
O homem, pouco confiado nos seus braços e dentes
(a maior parte usa dentadura), inventou os meios mais
terríveis de destruição. Nem gosto de falar.
Tive um amiguinho japonês (cachorro, bem entendido) que
contava de duas cidades de seu país completamente
destruídas por uma tal bomba atômica.
Trabalho de americano... Gente que dizem gostar muito de
cachorro... Morreu gente e cachorro, naquelas explosões, de dar pena.
Os homens se desróem de maneira espantosa e às vezes
curiosa. Quando um mata um, é preso. Fazem discursos, falam
muito, o assassino, conforme o caso é condenado.
Quando mata uma porção, ganha medalha.
Torna-se herói. São as tais guerras, que duram tempos sem fim.
Sempre na base de instrumentos poderosos de destrição.
Nós raramente temos guerras, mas é sempre na base leal do
corpo a corpo, do dente a dente. É muito mais nobre.
Orígenes Lessa, Confissões de um Vira-Lata.
Nunca vi bicho mais feroz do que o homem, animal que
vive armado. Alguém já viu cachorro de faca, de metralhadora
ou de bomba? O cão, quando luta, sempre em legítima defesa,
ou na defesa de seus amigos humanos, é na garra, é no dente.
O homem, pouco confiado nos seus braços e dentes
(a maior parte usa dentadura), inventou os meios mais
terríveis de destruição. Nem gosto de falar.
Tive um amiguinho japonês (cachorro, bem entendido) que
contava de duas cidades de seu país completamente
destruídas por uma tal bomba atômica.
Trabalho de americano... Gente que dizem gostar muito de
cachorro... Morreu gente e cachorro, naquelas explosões, de dar pena.
Os homens se desróem de maneira espantosa e às vezes
curiosa. Quando um mata um, é preso. Fazem discursos, falam
muito, o assassino, conforme o caso é condenado.
Quando mata uma porção, ganha medalha.
Torna-se herói. São as tais guerras, que duram tempos sem fim.
Sempre na base de instrumentos poderosos de destrição.
Nós raramente temos guerras, mas é sempre na base leal do
corpo a corpo, do dente a dente. É muito mais nobre.
Orígenes Lessa, Confissões de um Vira-Lata.
terça-feira, 27 de novembro de 2007
PASCAL
Quantos reinos nos ignoram! O silêncio eterno destes
espaços infinitos me apavora!...
Que o homem tendo voltado a si considere o que é na
medida do que é; e que desta pequena prisão em que se
encontra colocado, o Universo, ele aprenda a estimar
a terra e seja mesmo sua justa medida. Que é o homem no
infinito? O que é o homem na natureza? Um nada em
relação ao infinito, um tudo em relação ao nada, um meio
entre nada e tudo. Infinitamente afastado de compreender
os extremos, o fim das coisas e seus princípios... igualmente
incapaz de ver o nada de onde foi tirado, e o infinito em que
está envolvido. Que fará então a não ser perceber alguma
aparência no meio das coisas, num desespero eterno de não
conhecer nem seu princípio nem seu fim.
(PASCAL)
espaços infinitos me apavora!...
Que o homem tendo voltado a si considere o que é na
medida do que é; e que desta pequena prisão em que se
encontra colocado, o Universo, ele aprenda a estimar
a terra e seja mesmo sua justa medida. Que é o homem no
infinito? O que é o homem na natureza? Um nada em
relação ao infinito, um tudo em relação ao nada, um meio
entre nada e tudo. Infinitamente afastado de compreender
os extremos, o fim das coisas e seus princípios... igualmente
incapaz de ver o nada de onde foi tirado, e o infinito em que
está envolvido. Que fará então a não ser perceber alguma
aparência no meio das coisas, num desespero eterno de não
conhecer nem seu princípio nem seu fim.
(PASCAL)
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