HERA E ZEUS

JOHN DELVILLE

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

ROLAND BARTHES

Encontro pela vida milhões de corpos; desses milhões

posso desejar centenas; mas dessas centenas, amo apenas um.

O outro pelo qual estou apaixonado me designa a especialidade

do meu desejo.

Foram precisos muitos acasos, muitas coincidências surpreendentes

(e talvez muitas procuras), para que eu encontre a Imagem que,

entre mil, convém ao meu desejo. Eis um grande enigma do qual

nunca terei a solução: por que desejo Esse? Por que o desejo por

tanto tempo, languidamente? É ele inteiro que desejo (uma silhueta,

uma forma, uma aparência)? Ou é apenas uma parte desse corpo?

E nesse caso, o que, nesse corpo amado, tem tendência de

fetiche em mim? Que porção, talvez incrivelmente pequena,

que acidente? O corte de uma unha, um dente um pouquinho

quebrado obliquamente, uma mecha, uma maneira de fumar

afastando os dedos para falar? De todos esses relevos do corpo

tenho vontade de dizer que são adoráveis. Adorável quer

dizer: este é meu desejo, tanto que único:

“É isso! É exatamente isso (que amo)!”



Roland Barthes - Fragmentos de um discurso amoroso

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