HERA E ZEUS

JOHN DELVILLE

sexta-feira, 4 de julho de 2008

CLARICE LISPECTOR

Pois no Rio tinha um lugar com uma lareira. E quando
ela percebeu que, além do frio, chovia nas árvores, não
pôde acreditar que tanto lhe fosse dado.
O acordo do mundo com aquilo que ela nem sequer
sabia que precisava como uma fome. Chovia, chovia.
O fogo aceso pisca para ela e para o homem.
Ele, o homem, se ocupa do que el nem sequer lhe
agradece; ele atiça o fogo na lareira, o que não lhe
é senão dever de nascimento.
E ela - que é sempre inquieta, fazedora de coisas e
experimentadora de curiosidades - pois ela nem se
lembra sequer de atiçar o fogo: não é seu papel, pois
se tem o seu homem para isso.
Não sendo donzela, que o homem então cumpra a
sua missão. O mais que ela faz é às vezes instigá-lo:
" aquela acha", diz-lhe, "aquela ainda não pegou".
E ele, um instante antes que ela acabe a frase que o
esclareceria, ele por ele mesmo já notara a acha,
homem seu que é, e já está atiçando a acha. Não a
comando seu, que é a mulher de um homem e que
perderia seu estado se lhe desse ordem.
Ela sabe, e não a toma. Quer a não dele, sabe que
quer, e não a toma. Tem exatamente o que precisa:
pode ter.
Ah, e dizer que isto vai acabar, que por si mesmo
não pode durar. Não, ela não está se referindo ao
fogo, refere-se ao que sente. O que sente nunca
dura, o que sente sempre acaba, e pode nunca mais
voltar. Encarniça-se então sobre o momento, come-
lhe o fogo, e o fogo doce arde, arde, flameja.
Então, ela que sabe que tudo vai acabar, pega a
mão livre do homem, e ao prendê-la nas suas, ela
doce, arde, arde, flameja...


CLARICE LISPECTOR

Um comentário:

debora disse...

a conclusão é sensacional.. Clarice manja demais! :D